texto conjunto com o meu querido Bruno Araújo
Às vezes, eu travo meu pensamento, calo minha boca e interrompo meus passos, colando meus pés no chão. Parece doloroso, sufocante, quase enlouquecedor - mas não é. Essa pausa parece-me de extrema importância em certos capítulos de mim; eu não caberia no mundo sem ela.
Considero a pressa elemento fundamental na receita da ansiedade, vil companheira que transforma o tempo. Vinte minutos parecem ser cinco. Já não são mais "duas e quarenta e cinco", são "quinze para as três". Não é terça-feira; faltam tantos dias para tal coisa tão aflitamente esperada. É aquela eterna sensação de andar com a corda no pescoço, o passo apertado, o lábio quase ferido de tão mordiscado. É viver contra o horário. Ou sempre a frente do horário.
Hoje é quase amanhã, agora é quase depois. O futuro toma espaço; o presente é muito breve, ele quase não existe. Preenche-se a infância com planejamentos para a maturidade, sobrevive-se às noites organizando as manhãs. Onde não se vê pausas, um tropeço é fatal.
O ritmo é estonteante e frenético. Acorde, levante-se, vista-se e escove os dentes. Beba café, leite, suco de laranja e um pouco de vida enquanto o relógio do microondas grita "saia, saia agora, saia há cinco minutos". Não, não faz sentido. Não precisa fazer sentido, porque as chaves já acionaram a ignição e o motor ronca e você já está virando a esquina, e depois outra, e depois mais outra. Você nem viu a cor do céu hoje.
Às vezes, preocupo-me com a possibilidade de estar preenchendo minha vida de tantas expectativas. São os minutos esvaindo-se enquanto você decide onde vai querer estar daqui a cinco, dez, vinte anos, mas ninguém lembra de desejar bom dia a alguém. São os tempos modern... contemporâneos. Pós-contemporâneos, aliás. Urgência obscena.
Então, corremos. Mas corremos para chegar a algum lugar?
tenho pensado na mesma coisa ultimamente pq uma certa pressa tava quase me matando por nada
ResponderExcluirO texto tá foda; vocês são foda!
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